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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O Depoimento de Ravachol - O Anarquismo

    
Desenho reconstituindo Ravachol em seu depoimento a polícia.Le Petit Journal (Bibliothèque Nationale de France)
     Ravachol foi detido e interrogado (1892), e durante esse periodo defendeu-se aos interrogadores policiais, colocando da forma como entendia, a problemática do ser humano e de como se poderia assentar a sociedade em outras bases, de tal forma que a humanidade viveria de forma realmente livre e dignamente. A transcrição desse interrogatório só seria descoberta em 1964, pelo historiador Jean Maitron (1910 - 1987), um dos mais importantes historiadores do movimento operário francês. Professor do ensino médio e depois professor assistente na Sorbonne (Paris), escreveu e organizou diversas obras como Histoire du mouvement anarchiste en France — 1880-1914 (Paris, Sudel, 1951), Le mouvement anarchiste en France de 1914 à nous jours (Paris, Gallimard, 1992) e Ravachol et les anarchistes (Paris, Collection Archives, 1964).
    
     Vejam como, de forma simples, Ravachol consegue transmitir como seria o mundo anarquista.

O nomeado acima, após sua refeição, falou o que se segue:
"Senhores, é um de meus hábitos, sempre estou fazendo trabalho de propaganda. Vocês sabem o que é anarquismo?" Nós respondemos "Não" a esta pergunta. "Isso não me surpreende", ele respondeu. "A classe trabalhadora, assim como vocês, é forçada a trabalhar para ganhar seu pão, não tem tempo para se dedicar à leitura de livretos que lhes são dados. E o mesmo acontece com vocês. "Anarquia é a obliteração dos bens". "Atualmente existem muitas coisas inúteis; muitas profissões são inúteis, como por exemplo, contabilidade. Com a anarquia não há mais a necessidade de dinheiro, já não há mais necessidade de escrituras e de outras formas de trabalho que existem atualmente. "Existem nos dias de hoje muitos cidadãos sofrendo enquanto outros nadam em opulência, em abundância. Essa situação não pode durar; nós todos deveríamos receber o excedente dos ricos; e mais ainda, obter como eles tudo o que nos é necessário. Na sociedade atual, não é possível alcançarmos esse objetivo. Nada, nem mesmo uma taxação sobre o lucro, poderia mudar a face das coisas. Todavia muitos trabalhadores pensam que se agíssemos dessa forma, as coisas poderiam melhorar. É um erro pensar dessa maneira. Se taxamos um locatário, ele irá aumentar seus aluguéis e dessa forma vai dar um jeito de fazer com que aqueles que sofrem paguem pelos novos tributos impostos a ele. De forma alguma, nenhuma lei pode impedir os locatários de serem senhores de seus próprios bens, nós não podemos impedi-los de fazerem o que quer que queiram fazer com eles. O que então poderíamos fazer? Acabar com a propriedade e, fazendo isso, acabar com aqueles que a tudo tomam. Se essa abolição acontecer, também teremos que nos livrar do dinheiro, de forma a evitar qualquer idéia de acumulação, que poderia nos forçar a uma volta ao atual regime".
"É fato que o dinheiro é a causa de toda a discórdia, de todo o ódio e de todas as ambições; ele é, em uma palavra, o criador da propriedade. Esse metal, na verdade, nada é além de um preço acordado, surgido de sua raridade. Se nós não fôssemos mais obrigados a dar algo em troca das coisas que precisamos para viver, o ouro perderia seu valor e ninguém se interessaria por ele. Nem poderiam eles enriquecer a si próprios, porque nada que eles pudessem acumular poderia servir-lhes para que obtivessem uma vida melhor que a dos outros. E já não seriam mais necessárias as leis, nem necessários seriam os mestres".
"Quanto às religiões, elas seriam destruídas, porque sua influência moral não mais possuiria qualquer razão para existir. Não haveria mais o absurdo da crença em um Deus que não existe, desde que depois da morte tudo está acabado. Então poderíamos nos agarrar a vida, mas quando digo vida quero dizer vida, o que não significa escravidão diária para fazer os patrões gordos, enquanto morremos de fome fazendo de nós os responsáveis pelo bem estar deles."
"Mestres não seriam necessários, essa gente que ociosamente é mantida pelo nosso trabalho; todo mundo se faria útil à sociedade, pela qual eu digo trabalhando de acordo com suas habilidades e aptidões. Dessa forma, um poderia ser um padeiro, outro um professor, etc. Seguindo esse princípio, o trabalho por si mesmo diminuiria, e cada um de nós teria apenas uma ou duas horas de trabalho diário. Aquele que não fosse capaz de permanecer sem algum tipo de ocupação, encontraria sua distração no trabalho; haveria ainda alguns preguiçosos, e se eles existissem, haveria tão poucos deles que poderíamos deixá-los em paz e, sem queixa, deixá-los viver do trabalho de outros".
"Não existiriam mais leis, o casamento seria destruído. Nós poderíamos nos unir por inclinação, e a família seria fundada no amor de um pai e de uma mãe por seus filhos. Por exemplo, se uma mulher não mais amasse aquele a quem ela havia escolhido como companheiro, ela poderia se separar dele e buscar um novo relacionamento. Em uma palavra, completa liberdade para viver com aqueles a quem amamos. Como no caso em que eu falei se houvesse crianças, a sociedade poderia criá-las, isso é para dizer, aqueles que gostassem das crianças poderiam criá-las.".
"Com essa união livre, não existiria mais a prostituição. Não haveria mais doenças íntimas, uma vez que elas nascem somente do abuso de ambos os sexos; um abuso ao qual as mulheres são forçadas a se submeterem, já que as condições atuais da sociedade obriga-as a suportá-lo como um trabalho para sobreviver. Será o dinheiro a necessidade de uma vida, mesmo que ganho a qualquer custo?".
"Pelos meus princípios, os quais não posso explicar em tão pouco tempo tão cheios de detalhes, o exército não mais possuiria razão para existir, desde que não existiram mais nações distintas; a propriedade privada seria destruída, e todas as nações se juntariam em uma só, que poderia ser o Universo".
"Não mais guerra, não mais disputas, não mais ciúmes, não mais roubos, não mais assassinatos, não mais sistema penal, não mais polícia, não mais governo".
"Os anarquistas ainda não alcançaram os pormenores de seu projeto; os marcos apenas foram assentados. Hoje os anarquistas são em número suficiente para derrubar o atual estado de coisas, e se isso ainda não aconteceu, é porque precisamos completar a educação daqueles que nos seguem, fazendo surgir neles a energia e a força de vontade capaz de auxiliar na realização dos seus projetos. Tudo o que é necessário para isso é um empurrão, que alguns coloquem em suas próprias cabeças, e a revolução tomará seu lugar".
"Aqueles que explodem casas têm como objetivo o extermínio de todos aqueles que, por sua posição social ou por seus atos, são nocivos à anarquia. Se fosse permitido atacar abertamente estas pessoas sem temer a polícia, pela própria vida, não sairíamos a destruir suas casas com dispositivos explosivos que poderiam matar pessoas das classes sofredoras que têm a seu serviço ao seu redor."



quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A MISÉRIA - CAUSAS E EFEITOS SEGUNDO RAVACHOL


Os Retirantes - Cândido Portinari


 Este texto, foi escrito por François Claudius Koënigstein, mais conhecido como Ravachol (Saint-Chamond, 14 de Outubro de 1859 — Montbrison, 11 de Julho de 1892), foi um dos mais famosos anarquistas ilegalistas franceses, tornando-se a seu tempo o arquétipo do "anarquista lançador de bombas" através de suas ações diretas violentas contra a Terceira República Francesa. Para o Governo e sociedade Francesa (perspectiva legalista) Ravachol entrou para história como um dos grandes terroristas do século XIX. (wikipédia).
     Esta foi a sua manifestação, quando solicitado à tal, em seu julgamento, tendo sido acusado de contrabandista, falsificador, ladrão e assassino. É um texto escrito em 1892 mas de uma atualidade e lucidez perturbadora, impressionante. Define um ponto de vista transparente, franco e contundente sobre a problemática das causas e efeitos da miséria humana. Leiam e reflitam.

  "Se tomo a palavra não é para me defender dos atos de que me acusam, pois é somente a sociedade a responsável, que por causa da sua organização põe os homens em luta contínua uns contra os outros.
     De fato, não vemos hoje em todas as classes e em todas as profissões pessoas que desejam, não direi a morte, já que soaria mal, mas sim a desgraça de seus semelhantes, se esta puder lhes trazer algum benefício. Por exemplo, um patrão que deseja ver desaparecer um concorrente? Todos os comerciantes geralmente não guerreiam uns contra os outros com o objetivo de serem os únicos a desfrutarem dos benefícios que resultam deste tipo de ocupação? O trabalhador sem trabalho não deseja, para obter um trabalho, que por um motivo qualquer que um que esteja empregado seja despedido de sua função? Pois bem, em uma sociedade onde se produzem tais fatos, não devemos nos surpreender com o tipo de atos que agora me censuram, que não são mais que a conseqüência lógica da luta pela existência que têm os homens que para viver, são obrigados a recorrer a todo tipo de meios. E já que cada um por si próprio, se preocupa consigo, em suas próprias necessidades se limita a pensar "Pois bem, já que as coisas são assim, eu não tenho porque duvidar, quando tenho fome, em recorrer a todos os meios ao meu alcance, ainda e com o risco de provocar vítimas! Os patrões quando despedem os trabalhadores, se preocupam se estes vão morrer de fome? Todos os que têm benefícios se preocupam se existem pessoas que lhes falta até mesmo o necessário?"
     Certamente existem alguns que ajudam, mas são incapazes de aliviar a todos aqueles necessitados e aos que morrerão antes de seu tempo em conseqüência das privações de todo tipo, ou voluntariamente pelos suicídios de todo tipo para colocar fim a uma existência miserável e não ter que suportar as agruras da fome, as vergonhas, as inúmeras humilhações e desesperos sem fim. Nesta situação se encontra a família Hayem e a senhora Souhain que levou a morte a seus filhos para não os ver sofrer por mais tempo, e todas as mulheres que por medo de não poder alimentar a um filho, não hesitam em comprometer sua saúde e sua vida destruindo em seu seio o fruto de seus amores.
E todas essas coisas acontecem em meio à abundância de todo tipo de produtos. Compreenderíamos que tudo isto tivesse lugar em um país onde os produtos são escassos, onde não há alimentos. Mas aqui, onde reina a abundância, onde os açougues transbordam de carne, as padarias de pão, onde a roupa, o calçado estão amontoado nas lojas, onde existem casas vazias! Como admitir que tudo está bem na sociedade, quando se vê tão claramente o contrário?
     Haverá gente que se compadecerá de todas estas vítimas, mas que dirão que não podem fazer nada. Que cada um ajude como possa! Que pode fazer a quem falta o necessário mesmo enquanto trabalho, quando está desocupado? Não mais que desejar morrer de fome. Então se lançarão algumas palavras de piedade sobre o seu cadáver. Isto é o que gostaria de ter deixado para os outros. Eu preferi me fazer contrabandista, falsificador, ladrão e assassino. Poderia ter mendigado, mas é degradante e covarde, e até castigado pelas suas leis que transformam em delito a miséria. Se todos os necessitados, em lugar de esperarem, tomassem de onde existe o que precisam, não importando de que forma, entenderiam talvez mais depressa como é perigoso desejar manter o estado social atual, onde a inquietação é permanente e a vida está ameaçada a cada instante.
     Acabaríamos, sem dúvida, compreendendo mais rapidamente que os anarquistas têm razão quando dizem que para conseguir tranqüilidade moral e física, é necessário destruir as causas que geram os crimes e os criminosos: não é suprimindo àquele que, ao invés de morrer de uma morte lenta em conseqüência das privações que teve e terá que suportar, sem esperanças de vê-las acabar, prefere, se tem um pouco de energia, tomar violentamente aquilo que lhe pode assegurar o bem estar, ainda que sob o risco de sua morte, que não é mais que um fim para seus sofrimentos.
E é aqui que está o porque cometi os atos que me reprovam e que não são mais que a conseqüência lógica do estado bárbaro de uma sociedade que não faz mais que aumentar o número de suas vítimas pelo rigor de suas leis que se alçam contra os efeitos sem jamais tocar nas causas; dizem que se tem que ser cruel para matar a um semelhante, mas os que falam isto não vêem que decidimos fazê-lo tão somente para evitarmos a nossa própria morte.
     Igualmente, vocês, senhores juízes, que sem dúvida vão me condenar à pena de morte, porque acreditam que é uma necessidade e que meu desaparecimento será uma satisfação para vocês que têm horror em ver correr o sangue humano, mas que quando acreditam que será útil derramá-lo para garantir a segurança da vossa existência, não duvidarão mais do que eu em fazê-lo, com a diferença que vocês o fazem sem correr nenhum risco, enquanto que eu agi colocando em risco e perigo minha liberdade e minha vida.
     Bem, senhores, existe mais criminosos a serem julgados, mas as causas do crime não são destruídas. Criando os artigos do Código, os legisladores se esqueceram que eles não atacam as causas mas somente os efeitos, e, efeitos que todavia se desencadearão. Sempre existirão criminosos, ainda que destruam um, amanhã nascerão outros dez.
     O que fazer então? Destruir a miséria, esta semente do crime, assegurando a cada qual a satisfação de todas suas necessidades! E quão difícil é de realizar! Seria suficiente estabelecer a sociedade sobre novas bases onde tudo seria de todos, e onde cada um produzindo segundo suas aptidões e suas forças, poderia consumir segundo suas necessidades. Desta forma não veremos mais gente como o ermitão de Notredame-de-Grâce, mendigando por moedas daqueles que se tornam escravos e vítimas! Não veremos mais mulheres cedendo seus corpos, como uma mercadoria vulgar em troca destas mesmas moedas que nos impede freqüentemente de reconhecer se o afeto é realmente sincero. Não veremos mais homens como Pranzini, Prado, Berland, Anastay e outros que, para obter esse mesmo metal chegam a dar morte! Isto demonstra claramente que a causa de todos os crimes é sempre a mesma e que é necessário ser realmente insensato para não enxergá-la.
     Repito, se é a sociedade quem cria os criminosos, e vocês, juízes, no lugar de golpeá-los, deveriam usar vossa inteligência e vossas forças para transformar a sociedade. Com um golpe só fariam desaparecer todos os crimes; e vossa obra, atacando as causas, seria maior e mais fecunda que vossa justiça que se limita a castigar seus efeitos.
     Não sou mais que um trabalhador sem estudo, mas por ter vivido a vida dos pobres, tenho mais capacidade que um burguês rico para sentir a perversidade das suas leis repressivas. Onde foi que conseguiram o direito de matar ou prender um homem que, colocado sobre a terra com a necessidade de viver, se viu na necessidade de tomar aquilo que lhe faltava para se alimentar?
Trabalhei para viver e para sustentar a minha família; para que nem eu nem meus parentes sofrêssemos demais. Mantive-me da forma que vocês chamam "honesto". Depois o trabalho faltou e sem ele veio a fome. Só então veio essa grande lei da natureza, esse brado imperioso que não admite ficar sem resposta, o instinto de preservação me levou a cometer alguns dos crimes e infrações dos quais sou acusado e que admito ser o autor.
     Me julguem, senhores do júri, mas se vós me compreendestes, ao me julgarem julguem todos os desafortunados cuja pobreza combinada com orgulho natural, transformou em criminosos, e àqueles cuja riqueza ou o benefício transformou em homens honestos.
     Uma sociedade inteligente teria feito deles homens, como quaisquer outros"

     Prisão de Ravachol, segundo jornal frances, da época

     Em outros textos, Ravachol indica o anarquismo como solução para o que ele reclama. AnarcoTráfego irá publicá-los.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Os Cães e os Humanos - Parte III


    

     Do lobo ao limbo


     A maioria das raças que conhecemos hoje tem menos de 200 anos, e é fruto do boom de criação no século 19:
15000 a.C.
Os primeiros cachorros eram como lobos menores e mais dóceis, que se agregaram à humanidade como estratégia de sobrevivência.

2000-1000 a.C.
Os cachorros se espalham pela Eurásia e surgem as primeiras raças, selecionadas naturalmente para os diferentes habitats de seus donos.

Século 2
Os antigos romanos e chineses começaram a experimentar com seleção de espécies, criando cachorros para caça, guarda, pastoreio ou só para ficar no colo mesmo.

Século 19
Com o surgimento dos concursos e kennel clubs, a seleção artificial de cães virou negócio sério e lucrativo. Se em 1800 havia uma dúzia de raças, em 1900 eram mais de 70. A hiperespecialização gerou uma variação enorme dentro da mesma espécie.

    
     Metamorfoses ambulantes


     Os cachorros sofreram alterações radicais nos últimos 100 anos. Veja como estas raças eram e como nós as transformamos - e os graves problemas de saúde provocados por isso.

1. O buldogue só ficou gordo e enrugado porque nós achamos bonito; na versão original, era bem mais atlético.

2. Cérebro pra quê? Deixamos nossos cachorros bocudos - e com uma cabecinha bem menor.

3. Pode parecer difícil de acreditar, mas o bull terrier já teve um focinho normal. Seu narigão é obra do homem.

4. Tantas mudancas enfraqueceram os cães - uma mera infecção de pele pode ser fatal para o bull.


     Mutações de colo


     Na evolução das raças menores, o critério puramente estético foi decisivo na hora de escolher quais cães iriam se reproduzir. Os resultados são belos - e esquisitos também.

1. Um belo dia, alguém teve a ideia de colocar dobrinhas e turbinar (radicalmente) as orelhas do bassê.

2. Você gostaria de passar a vida arrastando a barriga no chão? Foi isso que impusemos ao dachshund.

3. O pug é o Michael Jackson dos cachorros: de tão manipulado, ficou praticamente sem nariz.

4. Algumas raças têm dificuldades crônicas para andar, pois nascem com deformidades nos ossos.

     Pesquisa realizada em diversos países pela Ipsos/Reuters aponta que um em cada cinco cidadãos do mundo prefere passar o Dia dos Namorados com o animal de estimação em vez do parceiro. 
     No Brasil, o número chega a 18%, ficando atrás da Argentina e da Espanha, por exemplo.
     "A ameaça do abandono e o medo de envolvimento podem ser um dos principais motivos para se querer passar o Dia dos Namorados apenas com o animal de estimação. Nada contra esse desejo, desde que isso seja uma exceção à regra, e não uma constante e feita de forma consciente. Defender-se do amor gera desamor contínuo e infelicidade".
     Segundo Andreia Calçada, psicóloga, psicoterapeuta, Ludoterapeuta, em Psicologia e Psiquiatria, o Narcisismo excessivo se configura no que chamamos de Transtorno da Personalidade Narcisista. Talvez aqui, relacionar-se apenas com seu bicho de estimação seja uma boa saída. Os bichos de estimação não reclamam e dificilmente haverá conflitos nesta relação. O narcisista apresenta  dificuldades em estabelecer vínculos reais, baseados em relações de troca.
     Segundo o sociólogo Clairton Lopes, o contexto cultural que garantia a estabilidade das relações amorosas e de casamento hoje mudou drasticamente. As relações afetivas não são mais garantidas por um quadro normativo e a família não é mais o único espaço de relações de convivência entre homens e mulheres. Os relacionamentos ocorrem por escolha das pessoas, não havendo garantia de estabilidade
os elos das relações afetivas e amorosas são cada vez mais frágeis. As relações são rompidas ou mantidas com base em escolhas que devem ser continuamente confirmadas, exigido contínuo investimento para sua manutenção.
     As relações entre os sexos, principalmente as amorosas, tornaram-se um trabalho que requer investimento de tempo e energia. E transformaram-se, assim, em um novo fator de estresse.
     Segundo Therezinha Feres Carneiro (2008), o atual momento social é descrito como uma era cujas mensagens e fenômenos são confusos, fluidos e imprevisíveis. O sociólogo Zygmunt Bauman (2003) in Carneiro, denomina esta era como "modernidade líquida" e compara o momento atual com o mundo darwiniano, onde o melhor e mais forte sobrevive. Os sentimentos são descartáveis, assim como os relacionamentos, em prol da sensação de segurança. Assim, a sociedade contemporânea enfrenta um paradoxo. A fragilidade do laço e o sentimento de insegurança inspiram um conflitante desejo de tornar o laço intenso e, ao mesmo tempo, deixá-lo desprendido.
     Querer conviver com animais é importante, porém, o animal não pode ser substituto das relações humanas. Trocas afetivas amorosas são fundamentais para o crescimento pessoal e social e não podem ser substituídas de forma rígida e inflexível pelo convívio com o animal, correndo o risco de se transformar em defesa neurótica contra o medo do abandono. Amar é risco, se doar é risco, ouvir e ser ouvido é sempre bom.

     Há muitos textos sobre o assunto, em diversas fontes. Procurei fazer uma releitura simples do que achei na web pensando em fazer algo sintético mas não foi possível, dado a complexidade do tema, então dividi-o em tres partes.
     Não pretendo ser dogmático, nem preconceituoso, muito menos esgotar o assunto, mas quero que as pessoas pensem com mais atenção nas prioridades das suas ações em relação ao meio em que vivem. Não acho sadio...acho até que há um componente psicopatológico muito forte que envolve a maioria das pessoas que se submetem à cultura dos Pet Shops, que enchergam alguma racionalidade em usarem isso como afirmação de status e que usam os animais de estimação, principalmente os cães, como uma muleta psicológica, ao ponto de se submeterem à uma degradação da dignidade, quando valorizam mais um cão do que uma criança.
     Trocar o cachorro por uma criança pobre é só uma metáfora escrita por Léo Jaime, que na verdade sugere que se façam ações, se tomem atitudes que ajudem pelo menos a minorar a fome e a degradação à que muitas crianças estão submetidas. Alerta, numa tentativa de abrir os olhos dessas pessoas que gastam horrores com cães e fingem não enxergar a miséria humana.
     Dediquei boa parte (8 anos) de minha vida no serviço público, sou Engenheiro Agrônomo, fui Secretário da Agricultura, Assessor do Gabinete do Prefeiro entre outras funções, usando meus conhecimentos e meu trabalho para produzir alimentos para crianças em alto risco social, em escolas, creches, hospital, apae, e em ações de combate a fome nos bairros de minha cidade.
    Acho que os animais selvagens e domésticos merecem nosso respeito e ajuda, sem a menor dúvida...mas enquanto tiver uma criança com fome perto de mim, prefiro as crianças.

A música "Rock da Cachorra" foi composta por Léo Jaime e foi muito executada nos anos 80, em uma gravação de Eduardo Dusek. Vejam e ouçam no link:

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Os Cães e os Humanos - Parte II


    
Algumas características dessa relação cães/humanos são impressionantes, não há como não questionar-se sobre a sanidade psicológica, capaz de produzir o que segue:
     Segundo a revista Superinteressante e o site cachorroverde.com, verifica-se que atualmente 80% dos cachorros são considerados membros da família, 35% deles dormem na mesma cama que o dono, e 30% têm festinha de aniversário todos os anos!
Tem gente que faz testamento para o cachorro (como a bilionária americana Leona Helmsley, que deixou sua fortuna de US$ 12 milhões para a cadelinha Trouble), e há até quem queira se casar com ele: o site marryyourpet.com oferece cerimônias e certidões de casamento. "Oliver é meu salvador. Sem ele, eu não acreditaria no amor", diz Carolyn, uma mulher que está casada com seu cãozinho há 5 anos.
      São maluquices, mas confirmam uma tendência: nossa ligação emocional com os cães está aumentando. James Serpell, biólogo da Universidade da Pensilvânia, nos EUA diz: "A tendência é que eles ocupem o vazio deixado por casamentos desfeitos e pela demora em ter filhos, muito comum hoje em dia." Isso é sentido na prática: pessoas separadas e viúvas consideram o cachorro mais importante do que a própria família - para elas, os animais fazem o papel de amigos próximo ou de filhos. Trinta e quatro por cento das mulheres e 23% dos homens americanos dizem que seu cãozinho seria o par ideal, se fosse humano. E 60% dos donos não abriria mão de seu cachorro depois do fim de um namoro.



     Assim como na Pré-História os lobos mais gentis haviam entrado nas aldeias, agora eram os cachorros mais dóceis e adaptáveis que entravam nas primeiras metrópoles. Livre das obrigações da lida rural, os cães passaram a usufruir de mimos, guloseimas e passeios. Transformado em bibelô e símbolo de status, o cachorro deixou de ser avaliado pela sua função, e passou a ser pela aparência
Talvez você não tenha visto casos tão extremos, mas certamente conhece algum cachorro que ficou cego, surdo, manco, morreu antes da hora por alguma doença... Mesmo com todo o esforço para aprimorar as raças, 1 em cada 4 cachorros carrega algum defeito genético sério. Eles sofrem mais problemas nos olhos e nos ossos e têm mais câncer do que nós. Como se isso não bastasse, também estão herdando as aflições humanas: um terço dos cachorros é gordo, e boa parte deles é neurótica. Segundo um estudo recém-publicado no Journal of Animal Behavior, 14% dos cães sofrem da chamada síndrome de separação, um distúrbio que causa dependência insuportável do dono. Isso significa que, percentualmente, o mundo tem 9 vezes mais cachorros doidos do que gente doida (1,5% da população humana tem algum transtorno mental). O que está acontecendo?


Sempre é bom lembrar:
Uma criança pobre vive com R$ 70,00;
O custo médio de um cão da classe média brasileira é de 162,00 reais!
Vivem melhor que as crianças.
Fica a sugestão do Eduardo Dusek, no Rock da Cachorra:
"Troque seu cachorro por uma criança pobre"!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Os Cães e os Humanos - Parte I


A proliferação de cachorros hoje em dia é impressionante. Há casos em que em uma moradia existem mais cães do que humanos. Pesquisa realizada por mim, quando trabalhava na Secretaria da Agricultura do município de Itaqui, demonstrou que neste município encontra-se cerca de 30.000 cães (na área rural e urbana), para 40.000 habitantes. Em outra pesquisa realizada pelo estudante Tales Gaspar (Colégio Universitário de Londrina/PR) e que tirou o 2º lugar na maior feira de ciências do país, demonstrou que cada animal em média, produz 300 gramas (0,3 kilos) de fezes por dia, sem contar a urina. A recomendação da Organização Mundial daSaúde (OMS) é de que a população de animais domésticos seja, no máximo, 20% do total de habitantes de um município, portanto, em Itaqui, tirando os gatos e outros pequenos animais domésticos, deveria ter no máximo 3 a 4 mil cães. Pasmem...tem 30.000!..produzindo 9.000 kilos de fezes POR DIA!!!...são 270 toneladas de fezes por mes, que são fator de impacto ambiental altamente considerável, visto que o manejo ecológico dessas fezes inexiste e é possível ocorrer a transmissão de doenças (zoonoses) através da saliva, fezes, patas e urina, como a Raiva, Sarna, Rinite, Bucelose, a Leptospirose, a Criptococose, a Larva Migrans entre outras menos citadas.
Desses 30.000 cachorros, tem alguns que vivem nas ruas, sem donos, cujo sobrevivência não tem custo, mas os demais, que vivem dependentes dos donos, têm um custo. Baixo para os donos pobres e mais alto para as classes média e alta.
Ainda no Trabalho feito por Tales Gaspar, foi detectado que, o custo médio de um cachorro criado pela classe média, é de R$ 162,00 por mes, e que nessa classe há 30% do total dos cães. Considerando Itaqui, teríamos 10.000 cães, a um custo de R$ 1. 620.000 - UM MILHÃO E SEISCENTOS E VINTE MIL REAIS POR MES, 19.440.000 (dezenove milhões e quatrocentos e quarenta mil reais) POR ANO, dinheiro suficiente para ERRADICAR A POBREZA (investimentos em emprego, lazer, saúde e educação) do município.

Um cão, criado pela classe média, custa R$ 162,00 por mes;

Uma criança pobre vive com R$ 70,00 reais por mes, menos da metade...

Acho que Eduardo Dusek percebia isso desde 1982 com

O Rock da Cachorra:

Troque seu cachorro
Por uma criança pobre
Sem parente, sem carinho
Sem rango, sem cobre
Deixe na história de sua vida
Uma notícia nobre...
Troque seu cachorro
Por uma criança pobre...
Tem muita gente por aí
Que tá querendo levar
Uma vida de cão
Eu conheço um garotinho
Que queria ter nascido
Pastor-alemão
Esse é o rock despedida
Prá minha cachorrinha
Chamada "sua-mãe"...
É prá Sua-mãe!
Esse é o rock despedida
Prá cachorra "Sua-mãe"...
Seja mais humano
Seja menos canino
Dê guarita pro cachorro
Mas também dê pro menino
Se não um dia desse você
Vai amanhecer latindo
Troque seu cachorro
Por uma criança pobre
Sem parente, sem carinho
Sem rango, sem cobre
Deixe na história de sua vida
Uma notícia nobre..

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

São poucos os que estão à frente de nosso tempo ou muitos que ficaram para trás?

        
           Acredito que esse é um tema para muitas letras e, além disso, que há várias formas de abordá-lo... considerando a multiplicidade dos pontos de vistas, então...
          Mas podemos considerar as características gerais dos que ficaram para trás e dos que estão à frente, ou simplesmente, na média, onde todos deveriam estar.
          Se são os que ficaram, entendo que assim estariam porque pouco toleram, crêem loucamente em deus (ou o que o valha), conseguem pensar um ou dois lances à frente, raramente tres...de tal forma que estão o tempo inteiro influenciáveis por toda sorte de sofismas, artimanhas e teias de um sistema altamente capitalizado, objetalizado, com todos os seus elementos instalados e desenvolvendo-se sem qualquer objeção e/ou questionamento considerável, o que joga a concentração para cima e o ser humano para trás no tempo...ou, na melhor das hipóteses, estacionado.
          São egoistas e dogmáticos, apesar dos prazeres.
          Se são os que se adiantam no tempo, então entendo que isso acontece porque conseguem pensar muitos lances à frente(como no xadrez-o jogo); conseguem analizar cada informação que recebem, com critérios e constróem uma rede de valores sólidos o que redunda em muita clareza no caminho aos objetivos.
          São solidários e autogestionários por excelência, conseguem ser livres mesmo à grilhões, apesar das dores.
          No que se refere ao lugar médio onde todos deveriam estar...bem, se somos frutos do genótipo e do meio em que vivemos, considero que o meio pode nos empurrar para frente, nos fixar medievalmente ou pior, remeter-nos para trás. Sorte que não está só: há o genótipo, principal artífice da evolução e só nos carrega para frente, lentamente, mas para frente, para o futuro evoluido, onde todos poderão estar no lugar médio do tempo onde todos deveriam estar.


Gilmar Bonorino

sábado, 10 de setembro de 2011

Divertir-se loucamente


Soft Watch at the Moment of First Explosion, c.1954 poster
               Soft Watch at the Moment of First Explosion
            Relógio Mole no Momento da Primeira Explosão (Dali)


Como se divertiam os loucos na época em que de fato haviam loucos? Onde eles se divertiam? Gozavam todo mundo, não seguiam regras nem convenções. Falavam alto, riam sem motivo. Seu destino era escapar às posições fixas. Podiam desestabilizar pessoas e costumes. Nômades, transgressores, percorriam estradas e rios, vagando entre as regras e as obrigações. Colocavam de cabeça para baixo imagens de santos, parodiavam os sacramentos, gozavam a autoridade da Santa Igreja.
Faça isso também. É claro que não existem mais rios ou estradas onde se encontrem multidões vociferantes. Se em nossos dias você tentar fazer uma expedição desse tipo, será internado num hospício. É preciso encontrar outra coisa. Tente então ser crítico, cronista, escritor, romancista, artista, cineasta, músico, saltimbanco ou algo do gênero. Simplesmente deslocado. 
Faça o possível para perturbar sua época. Não sonhe com alterar a História, semeie pequenos tumultos onde você está. Desorganize os planos, crie o inesperado, desfaça as previsões. Atravesse obstinadamente a sociedade sem obedecer.



Você deve, evidentemente, se submeter às ordens, aos poderes. Será até mesmo necessário se ajoelhar, por prudência, por covardia, ou mesmo por mera adulação, diante de algum tipo de poder.
Decida que isso não tem importância. Você pode dobrar a espinha, por questões estratégicas, às vezes, se estiver totalmente certo de que nada em você irá se dobrar.



Preserve com cuidado e por muito tempo seu espaço de manobra. Saiba agir de forma oblíqua. Manobre como um louco os contratempos. Pratique passos de viés, o andar de caranguejo, os atalhos. Todos os dias, sem exceção. Adquira o hábito de encontrar a resposta mais incongruente, a que parece menos adequada. De tempos em tempos, faça isso na prática. E veja o que acontece.



A parte mais difícil para que você se divirta  como um louco  é conseguir  pensar que não existe nada realmente sério. Ou seja, chegar ao ponto em que tudo, absolutamente tudo, de certa forma se torna motivo de graça: a existência, a morte, a humanidade, o amor, o universo, as formigas, a escrita, o dinheiro, as profissões, os corpos, o pensamento e a política. E outras coisas mais.
Sem esquecer o próprio riso, a diversão e os loucos.
(Roger-Pol Droit é Filósofo e cronista do jornal francês "Le Monde")